quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Queridos,

O Ao Leite não é um blog sobre política.

Muita gente que convive comigo estranha que não seja.
Minha vida adulta, meus princípios e mesmo meu caráter se construíram dentro de um partido político, fui militante do movimento estudantil, faço hoje parte da diretoria executiva do meu sindicato e falo e (principalmente) penso em política boa parte do dia.
Ainda assim, jamais pensei em manter um blog político.
Primeiro porque não me julgo em condições ainda. Política é coisa séria demais e escrever precisa ser um ato responsável. Em segundo lugar vem minha vontade de fazer do nosso Ao Leite um cantinho de prosa amena, descompromissada. Afinal, em algum momento a vida tem de ser assim, né?! Pra gente não se tornar muito chato e monotemâtico.

Mas há momentos em que não há como se furtar da discussão. Assim sendo, eu convido vocês pra um dedinho de prosa. Pode ser?!

Eu estou vivendo dois processos eleitorais simultâneos, o principal deles vai eleger o futuro presidente do nosso país.
E que me perdoem aqueles que não acreditam mais, aqueles que elencam inúmeros motivos para não acreditar, mas eu verdadeiramente me encanto com o processo eleitoral. Já perdi as contas de quantas panfletagens, quantas conversas pedindo voto, quantas campanhas... Já vi muita gente que não vale nada ganhando eleição à custa de compra de voto e de muita mentira e já vi o tal "voto protesto"em ação comentendo injustiças e burradas fenomenais.
Ainda assim, todo o processo me encanta. Me encanta e emociona a possibilidade de sonhar, discutir e planejar o futuro. Me encanta sobretudo porque eu sei que não foi sempre assim.

E aí começo a chegar onde queria.

É natural que haja excessos em um processo eleitoral, de parte a parte. No calor da batalha é compreensivel que candidatos e militantes partam para um processo de desqualificação de seus adversários. Todos nós eleitores já vimos isso acontecer e com o amadurecer do nosso tempo democrático (ainda tão curto) vamos aprendendo a filtrar as informações, o que faz e o que não faz sentido. O que tem importância e o que é absolutamente irrelevante. Até aí tudo certo.

Contudo, ninguém discorda que um mínimo de ética, de lucidez, uma mininma faísca de caráter é necessário manter, mesmo em tempos de embate.
É importante que seja assim em respeito ao adversário, aos eleitores e em última instância em respeito próprio.

Recebi, encaminhado por uma amiga escandalizada, um email de baixíssimo nível chamando ao mesmo tempo a candidata Dilma Roussef de terrorista, assassina, delatora e claro (porque em se tratando de uma mulher candidata até demorou), vagabunda.

A excrescência dá conta que Dilma teria feito parte de um grupo terrorista responsável por mortes no período da ditadura, que presa teria entregue companheiros e que paralelo a isso teria levado uma vida de depravações que culmina com seu (tchantchantchan...) DIVÓRCIO.

E eu me peguei fazendo um exercício interessante. Tentei me colocar no lugar de Dilma.

Tentei decifrar o que sentiu alguém que viveu aquela guerra, aquele inferno promovido pelos militares que arrasaram um país, que cobriram de vergonha uma nação inteira. O que sente alguém que não ficou debaixo da mesa esperando o temporal ir embora, alguém que sentiu muito medo mas que ainda assim não permitiu se deixar calar, que foi pra rua, que protestou, que ergueu a voz quando as vozes eram silenciadas à bala.

Que sentimento move alguém que deixa a família, que abandona o próprio nome, sua rotina, seus amigos, sua segurança, para defender uma democracia que não está mais em lugar nenhum?
E hoje, o que sente?

Alguém realmente desconhece que hoje pode dar seu sagrado voto à Dilma, ao Serra, ao Tiririca ou a quem quer que seja por conta das batalhas travadas naquele tempo?? Algum dos idiotas que reproduzem material desse tipo realmente acredita que um belo dia seu direito de votar simplesmente caiu no seu colo?
Não.
Não se trata de ingenuidade, nem de vontade de ganhar a eleição, não se trata de ser contra o PT ou detestar o carisma insuportável do Lula. Gente que escreve e reproduz coisas assim é movida por interesse, apenas isso. Nem por ódio, por interesse mesquinho mesmo. O lance do "meu primeiro", entende?
Quem pensa/idealiza/escreve tem interesses maiores é verdade, depois conta com a mesquinhez, com a burrice e a falta de caráter de quem reproduz, mas no fundo, no fundo, são farinha do mesmo saco.

Mas a resposta meus caros, como sempre, tá logo ali na frente.




Em tempo: pensei que tinha apenas salvo um rascunho para corrigir depois. Em vez disso, postei. Perdoem os erros quem leu antes de eu voltar.

4 comentários:

Ári disse...

Parabéns amiga.

Cristiane Mari disse...

Lili... não sou militante, você sabe, mas nem por isso deixo de prestar atenção em tudo o que está a minha volta.
Concordo plenamente com o que você escreveu.
Parabéns mesmo. Bjão

dininhobr disse...

Parabéns companheira, por sua lucidez, sua indgnação e principalmente por sua compreensão de todo o ódio que a classe dominante deste país tem do povo brasileiro, que pode hoje (ainda que não percebam) exercer o sagrado direito de simplesmente escolher seus governantes!!!
sou cada vez mais um fã seu!
Ednor Júnior
fã de Alagoas

Ao Leite disse...

Ári querida, brigadim.

É isso Cris, a gente tem de ficar ligada. Bjocas, flor.

Ednor querido!! Que honra você por aqui. Volte sempre, sempre, sempre. Bjão pra você meu amigo.