quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Visibilidade é que é superpoder


Invisibilizar é tornar invisível.

Façamos um exercício. Pense então em uma forma de tornar algo invisível. Algo médio, uma cadeira.

Você pode esconder, dentro de um armário grande ou de uma sala que nunca é usada. Em pouco tempo todos na casa vão esquecer que a cadeira existiu e se nenhum chato questionar insistentemente, ela nunca mais será lembrada.

Você pode destruir, quebrar bem e colocar em um saco de lixo ou incendiar. Para que ninguém reclame muito do sumiço, antes você deve ressaltar a desimportância desse móvel esquisito, sua inutilidade e como ela depõe contra a decoração.

Há uma forma ainda mais simples de tornar algo invisível. Você pode simplesmente desviar a atenção, desconsiderar sua existência de forma absolutamente enfática. De volta à nossa cadeira esquisitona, você pode afastá-la para um canto da sala em um dia, redirecionar a iluminação valorizando outros móveis em outro. Você pode transformá-la em outra coisa, como um suporte para alguma linda e frondosa folhagem. Em pouco tempo, se você descrever a antiga cadeira para os demais moradores, eles não terão certeza sequer que ela existiu.

Funciona. Mesmo. Se não acredita, pergunte a uma mulher lésbica. Na maior parte da vida cotidiana elas são invisíveis.

Mulheres lésbicas são muito duramente atingidas pelo machismo. Sua simples existência é usada pelo patriarcado para descrever “o pior tipo de mulher”: a que ousa não desejar a aprovação afetiva e sexual masculina, um esteriótipo de negação de tudo que se espera de uma “mulher de verdade”.

Mulheres lésbicas são registradas pela retina seletiva da sociedade apenas para terem negadas vagas de emprego e outras possibilidades de ascensão social ou quando ousam demonstrar seu afeto ou desejo em público. Só. Apenas.

Em todo o resto do tempo seguem sepultadas nas salas vazias onde ninguém entra, soterradas em papéis que não são seus quando não em sacos de lixo. Não existem nas políticas públicas, não existem nas estatísticas e nem mesmo na maioria esmagadora do movimento social. São desconsideradas das pautas ditas LGBTs. Mulheres lésbicas são invisibilizadas até no feminismo, mesmo tendo um papel preponderante e fundamental em toda a desmistificação do que seja o “papel feminino na sociedade”.

Quando Rafaela Silva conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil esta semana imediatamente a rede se inundou das mensagens padrão dirigidas a quem vence, porque claro, todo mundo quer estar perto do cheirinho do sucesso. Sua descrição passou a ser: mulher, negra, pobre e vencedora. Nenhuma linha dita sobre a orientação sexual que Rafaela não faz questão nenhuma de esconder em seus perfis em redes sociais.

Algum hipócrita vai dizer que a vida íntima da atleta não é da conta de ninguém porque é assim que a lesbofobia opera, quando se é bem-sucedida (e olha, são incontáveis mulheres de sucesso) esta passa a ser uma informação não relevante. E por que?

Se o sucesso profissional de uma mulher heterossexual já representa uma fissura na estrutura patriarcal, que dizer destas bruxas que fogem da fogueira, do julgamento constante, do camburão, do espancamento, do estupro corretivo e dos rótulos todos para alçarem voos livres, olhando a estrutura toda lá de cima, sem nenhuma reverência?

Representatividade importa sim. Existir e ser respeitada como ser social, ser ouvida, consultada, considerada, incentivada e amparada pelas políticas públicas são direitos inegociáveis de todas as mulheres. DE TODAS.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

(re)trato

E se a gente combinar que eu vou fazer só o que dá? Nem uma gota a mais de suor, um minuto além da minha pouca concentração?
E se eu agora passar a te responder que não? Agora não. Não tão rápido.
E se eu desligar o piloto automático e você tiver que conviver (ou não) com o meu ritmo instável e reflexivo?
E se eu me assumir assim e pronunciar a frase: "não consigo agora", cheia de orgulho, como quem diz "gabaritei em química"?
E se não ser a favorita do mês não me causar sentimento algum?
E se quando você flamejar insinuando me substituir eu sorrir com o cantinho da boca?
Vamos supor que eu erga um pequeno altar em homenagem a imensa preguiça que você me desperta e resolva passar o dia lá enquanto você arranca os cabelos.

A verdade é que teu olhar de reprovação, teu discurso sobre cooperação e empenho me transpassam enquanto te olho com cara de paisagem e penso na boca que eu quero beijar.
Enquanto você me fala dos prazos e de como eles mantêm a terra na sua órbita, eu ouço nitidamente o barulho das ondas quebrando e da risada escandalosa da minha tribo.
Se eu respirar fundo, saiba, não é  pra te suportar, estarei lembrando do cheiro gostoso que tem o abraço do meu melhor amigo.
Vou revirar os olhos e você vai pensar que eu não suporto mais te ouvir. E eu nem suporto mesmo. Mas prometo que se você não perguntar eu não conto que eu estou, na verdade, relembrando um orgasmo da noite passada, longe, muuuito longe dessa sala.
Tem uma parte de mim que você até compra sim, só que (surpresa!), toda vez que você tentar me reduzir à uma engrenagem eu vou explodir numa gargalhada insana e inconveniente. Talvez você nem ouça. Pouco importa. Essa sou eu repetindo pra mim: Não permito.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Toco

Tá, e agora? O que será que você tá dizendo?
É que a tua boca se mexe de um jeito tão gostoso. Eu sei que não é nada que eu queira ouvir. Algo sobre como eu sou... sou o quê? É esse seu jeito de morder o lábio enquanto procura a palavra certa. Me desconcerta. Incrível! Eu sou incrível. Não. Mas você é.
Já já vai me olhar nos olhos, vai se irritar porque não consigo disfarçar. Não consigo me concentrar quando você fala assim, ao alcance da minha boca. Desculpa.
Pronto. Me encontraram. São teus olhos grandes que me chamam agora. Nome e sobrenome. É sério.
Eu sei. Eu sei que não dá, sei sim. Você queria se sentir diferente. Mas não.

Esse silêncio todo, alguém mais ouviu?

Alguém mais sentiu esse vento gelado?

Será que alguém em volta notou minha cara mudando, murchando feito o balão da festa que já terminou?

Vai logo. Se vira e começa logo a caminhar pra longe de mim que essa é a pior parte. Só vai sobrar o cheiro doce do teu perfume na minha mão. Vai ficar mais fácil depois.
Olhando pro teto vou fabricar alguma paz odiando o roteiro ruim que você escreveu pra nós.
Sem final triste.
Uma história sem começo.

terça-feira, 30 de junho de 2015

mais e mais violência

Ok. Não tá fácil.

O tema: violência contra a mulher.
A primeira grande dificuldade: convencer autoridades representantes do Estado de sua existência.
Sim, sério. Autoridades policiais de delegacias especializadas seguem questionando a existência de uma modalidade de violência que tenha origem unicamente no fato da vítima ser mulher e de um entendimento de que essa condição faz sua vida e dignidade menos valiosa. Magistrados (e magistradas) seguem negando a necessidade de equipes qualificadas para lidar com vítimas nesse tipo de processo. Gestores públicos NÃO CONSEGUEM sequer fazer uma fala qualificada de cinco minutos sobre a própria responsabilidade no enfrentamento desta modalidade de violência, o que dizer então de sua capacidade de elaborar e implementar políticas públicas. Nosso legisladores (no masculino mesmo) são o retrato em pior ângulo de uma sociedade que tolera,  ou pior, acoberta a violência doméstica, o abuso sexual nos ambientes familiares e de trabalho e a cultura do estupro.

Sinceramente? É desesperador pensar que algum avanço depende desse sistema tão despreparado e que sequer reconhece na prática cotidiana a existência da violência que nos oprime.

Segunda grande dificuldade: nós. As inúmeras voltas que nossas teorizações sobre o tema tem dado atrás do próprio rabo, nossa infinita disposição para discutir pormenores entre nós mesmas quando o mais lógico seria simplesmente acolher as diferenças e recortes todos buscando ampliar e fortalecer um movimento que tem muito mais inimigos que aliados, o feminismo. Como ficamos tão ocupadas em militar na corrente mais avançada e mais "correta", não raramente perdemos de vista a crueldade e o tamanho do inimigo. Se tivéssemos mais presente o fato de que mulheres que não conhecem todas as vertentes, raízes e linhas de pensamento feminista são espancadas, estupradas, abusadas e mortas todas as horas do dia não teríamos tempo pra fazer mais nada além de lutar e amparar, lutar e acolher, lutar e defendermos umas às outras. É claro que devemos estudar, debater e refletir para melhor interagirmos, o que não podemos é nos perdermos  nesse caminho a ponto de nos tornarmos absolutamente irrelevantes na vida de quem mais precisa do feminismo.

Feminismo que não serve para TODAS as mulheres, não serve pra nenhumas delas. Como exemplo: adolescentes, negras, idosas, transexuais, desempregadas, analfabetas funcionais são mulheres que tendencialmente estão expostas a um nível de vulnerabilidade maior e tem lutas específicas a protagonizar dentro do movimento feminista e devem contar com os seguimentos mais "privilegiados" como seu escudo e espada.

 O desafio: emancipar. É isso, né? A superação, ou vá lá, o combate a violência contra a mulher pressupõe a emancipação feminina, seu empoderamento através do autoconhecimento e consequente elevação de sua autoestima, sua autonomia financeira, ampliação de seus horizontes intelectuais e culturais e uma inserção na sociedade com atuação política consciente.
É nesse ponto que penso que temos ousado pouco e reproduzido preconceitos.
Neste final de semana ouvia uma explanação sobre determinado programa, que conta inclusive com verba federal, onde se apontava como ações realizadas "cursos rápidos de pintura em tecido, bordado e produção de sabão em barra a partir de óleo de cozinha descartado." Eu peço perdão a quem realmente acredita que está transformando vidas assim mas humildemente discordo demais. Esse tipo de ação em clubes de mães, em grupos de idosas ou como atividade suplementar em algumas escola de ensino médio é muito bem vindo. É bacana, é terapêutico, é socializante, CLAARO QUE É.
Mas como política de inserção no mercado de trabalho? Como alternativa de renda pra mulher que precisa se libertar de um marido violento? Como elemento de empoderamento e elevação da autoestima? É deprimente, é pouquíssimo. É sério que não conseguimos nos desafiar mais? Oferecer como nova perspectiva cursos de pintura e sabão não é perpetuar a ideia de que o nosso mundinho é esse mesmo, doméstico e paupérrimo?
Mulheres que vivem em situação de violência precisam de dinheiro de verdade, de trabalho de verdade. Precisam de carteira de trabalho, de carteira de habilitação. Precisam de cursos profissionalizantes em algo que possa empregá-las, precisam se transformar em competentes comerciárias, torneiras mecânicas, operadoras de ponte, domésticas, cabelereiras, motoristas. Mulheres em situação de violência precisam superar o analfabetismo funcional, precisam fazer ENEM, precisam fazer o CEJA. Elas precisam de discussões organizadas que as coloquem de frente com a dura realidade em que estão inseridas e não de uma psicóloga que entra furtivamente para "pincelar" um tema "delicado' entre um cursinho e outro. Essas mulheres precisam escrever e ler bem, precisam fazer conta de cabeça, precisam se localizar geograficamente dentro da sua própria cidade.  As mais idosas precisam ter seus direitos a aposentadoria atendidos, as mais debilitadas precisam de espaços físicos seguros e limpos. As muito jovens precisam ser jovens, ter sua juventude protegida e educação garantida. E tudo isso com muita urgência, quem apanha tem pressa.
É difícil? Óbvio. Precisamos, nós feministas, nós movimento social, acreditarmos nessas mulheres, na sua capacidade, precisamos brigar por elas e ensina-las a brigar também. brigas por MAIS. Precisamos de cotas no PRONATEC pra essas mulheres, incentivos fiscais para suas contratações, sei lá... Precisamos ousar muito mais, cobrar muito mais de quem está fazendo.
Não é porque é política para mulher vítima de violência que qualquer coisa serve. Não é porque as dificuldades são imensas que a gente deve limitar nossas expectativas e os horizontes da nossa luta.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Correntes

Sobre a "corrente das barrigas" que anda rolando no Facebook, essa em que mulheres desafiam mulheres a postarem fotos do período em que estiveram grávidas numa campanha contra o aborto... preciso falar. Preciso.
Tenho visto gente que amo nessa "campanha", compreendo suas intenções, tento respeitar seu ponto de vista. Acredito que elas não aprovem a morte de um milhão de brasileiras todos os anos em virtude de abortos clandestinos inseguros e pensam estar defendendo a vida.
No entanto, essa campanha me enoja em tantos níveis e por tantos motivos que tenho até dificuldade de organizar o pensamento.
Vejamos:
Quando se usa como argumento contra o aborto a visualização da própria experiência em relação à maternidade o que se faz é enxergar o mundo a partir do próprio umbigo. É de uma pequenez deprimente. Sua gravidez pode ter sido linda, desejada, amparada, saudável e estruturada. Ótimo. Ainda que não tenha sido exatamente assim você, cá entre nós, não vai admitir nem para o espelho as coisas em que pensou antes do pai do seu anjo assumir a paternidade, ou quando se deu conta que seu sonho de faculdade e independência tinham sido adiados. Agora tudo está bem. Ok. Mas seria bacana se você conseguisse entender que a SUA experiência é a SUA experiência. O que você sentiu e sente em relação à maternidade é assunto seu. Há mulheres sem nenhuma condição física, econômica e psicológica para dar à luz um bebê. A grande maioria o fará assim mesmo. Mesmo não querendo ser mãe, não desejando esse filho, mesmo sabendo que não tem grana pra dar a ele a vida que ela acha decente. Quem serão esses filhos? Bom isso já não é problema de ninguém além de mãe e filho, correto? Se essa mãe for descontar no filho, se ele for negligenciado, se sentir desamor e solidão que se vire.
Talvez você tenha sido uma daquelas heroínas. Talvez você tenha "vencido" a maternidade e realizado todos os teus sonhos, talvez tenha criado cinco filhos sozinha. Ainda assim essa é você. VOCÊ, entende? É uma covardia cobrar heroismo de quem quer que seja. Dedicar a vida de forma sacrificante a algo ou alguém deve ser uma escolha pessoal.
Você que faz campanha contra aborto, o que pensa do recorrente e legal aborto masculino? Você acha que homens que se recusam a assumir a paternidade devem ser presos? Se você disser que sim, vou dizer que é mentira. Você não assinou nenhuma petição online, nem criou ou participou de evento no Facebook pra isso, tenho certeza.
Homens declaram publicamente que não estão prontos, que não tem condições financeiras e que tem outros planos frente a uma gravidez indesejada. E pronto. Assumem apenas via decisão judicial três anos depois do nascimento e submetem seu filho ao abandono econômico e afetivo. E tudo bem. Por algumas mulheres ele será chamado irresponsável ou covarde. A maioria dos homens dirá "quem nunca?" Mas essa não é uma conduta criminosa, nem na sua cabeça nem na de ninguém.
Ninguém pede pra que você aprove o aborto (que é uma intervenção que precisa de instrumentos cirúrgicos e não da sua bênção), ninguém pede que você aborte ou ensine suas filhas a abortar, você não precisa gostar de nada. Apenas respeite, aponte seu dedo pra uma estrela ao invés de aponta-lo pra quem já está imersa em dor e desamparo. E por favor, não use sua suposta felicidade materna sem precedentes como argumento para defender que essas mulheres continuem morrendo ou vivendo escravizadas, elas e seus filhos indesejados, pela maternidade. Ninguém merece isso.
Por último, eu sei que vocês podem entender o que eu vou dizer agora, e vou dizer respirando fundo e enchendo meu coração de amor: vocês são mulheres. Vocês são mulheres. Nós todas somos mulheres. A gente sabe, só a gente sabe o que isso significa. Olhe bem no espelho, pense nas mulheres que você ama, em todas as semelhanças entre vocês, pense nas distâncias também. Pense no quanto esse mundo é grande e em quantas mulheres há nele, em como vivem vidas tão diferetes entre si. Não repita coisas cruéis como: "fazer foi bom, né?" ou "como é que alguém engravida sem querer hoje em dia?". Você sabe a verdade, eu sei, nós todas sabemos.
Amo você, irmã. É o que somos, irmãs.

domingo, 14 de setembro de 2014

carta pra você que está ficando menor

Adoro seu mimimi de que o mundo tá chato e já não se pode rir de quase nada. Adoro. É bem cínico mas eu acho graça. 
É cômico assistir seu desespero quando você lembra os bons tempos em que podia humilhar negros, debochar de gays, rir de mulheres gordas ou loiras e isso era considerado socialmente aceito. Era humor. Era unânime. Me retorço de vontade de rir na tua cara porque você e eu sabemos que esse tempo passou. Irremediavelmente. 
Agora toda vez que você chama um negro de macaco tem alguém filmando e outro alguém pra considerar aquilo nojento. Sempre que você abre sua revista semanal há outra notícia de casais gays se amando, sendo felizes, criando filhos e alcançando direitos que eram só seus. Daqui a pouco, logo ali, escrachar esses casais e promover ódio contra eles vai ser crime também. Que droga, hein? 
E nós, mulheres abusadas? A gente não para de encher o teu saco né? A gente insiste em destruir teu mundinho onde tudo funcionava tão bem. Não aceitamos mais tuas violências. Nenhuma delas. Você não pode mais me bater, NINGUÉM mais acha isso tão normal quanto você gostaria. Você não pode mais fazer sexo comigo desacordada, não pode mais me bolinar no ônibus, se você me disser grosserias na rua, ao invés de abaixar a cabeça, vou levantar meu dedo médio. Estou cada vez menos preocupada com o que você pensa sobre qualquer coisa.
Talvez nem você saiba o que é que te desinquieta tanto, mas eu sei. 
O que te assusta e te torna tão patético é a absoluta certeza de que nunca mais o mundo voltará a ser como foi. Os negros e negras não vão nunca mais se contentar em existir nos guetos da cidade, vão disputar tuas vagas, teus empregos e vão querer salários tão bons quanto o teu. Cada vez mais casais do mesmo sexo vão se sentir mais a vontade e mais seguros para amarem em público, exatamente como você faz. Nós mulheres (negras, lésbicas, trans, idosas e meninas) continuamos estudando e focando em objetivos e horizontes tão ou mais ambiciosos que os teus.
E é por isso que eu continuo com esse sorriso de cantinho de boca que você odeia. 
Mesmo quando um menino gay morre estrangulado em um matagal, quando alguém é ofendido publicamente por sua cor, quando uma mulher trabalhadora e inteligente é morta a tiros por alguém que acredita ser seu dono, mesmo ali com todo o nojo, dor e revolta eu quase tenho pena de você que relativiza a violência sofrida por eles. Que tenta "explicar" que a vítima teve sua parcela de culpa ou que não foi tão grave assim.

Cá entre nós, seu idiota: Eu sei e você sabe, o mundo está mudando rápido e cada vez vai haver menos de você e mais de nós.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Mais doce que amargo.

Pois é. Saí pra comprar cigarro (sabe deus pra que já que eu não fumo) e acabei ficando dois áridos anos sem voltar. Criei outro blog, não rolou. Não foi. Ficou estranho. Tentei delimitar, focar. Como se isso fosse possível pra mim.
Voltei. O "Ao Leite" voltou. Mas mudou. Cês tão vendo, né? Tá limpinho. Tirei um relógio em forma de chaleirinha, um cachorrinho com nome de Cusco com o qual era possível brincar e um monte de links para blogs igualmente abandonados. A lista pretendo refazer assim que sobrar um tempinho. Mas vem cá... Quem era essa mulher com esse blog cheio de "coisinhas fofinhas"? Graças aos deuses pela chegada dos quarenta (e um).
Ah! Pasmem, tirei também o link da minha conta no Orkut. Tava uma tapera esse bloguinho.
E que burra... Fiquei tão assustada quando vi aquele endereço ainda ali parecendo uma camada grossa de poeira que corri deletar. E lá se foi a última chance de resgatar algumas fotos. A senha eu não sei mais. Azar. Nem tô.
Dizem que ninguém mais lê blog. Vai saber.
Enfim... cá estamos. Mais doces que amargos.
Apareçam.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Das simplificações que deturpam

"A mesma coisa" não existe. Foi minha militância política sobretudo que me ensinou: "mesma coisa" não existe. Sobretudo falando de política, de projetos políticos e suas consequências a que se ter muito cuidado com generalizações dessa ordem.
No caso das eleições americanas, ouvi e li nos últimos dias muitas pessoas que, desencantadas com a agressiva e imperialista política externa americana, estufam o peito para dizer que esta é uma eleição de iguais, em que tanto faz e nada muda. Comentários até certo ponto justificáveis e em nada nocivos, a menos é claro que saiam da cabeça (e da boca) de quem presumidamente precisa apresentar um grau a mais de elaboração política.
Óbvio ululante dizer que Obama decepcionou até mesmo que esperava pouco dele. Argumentar que também ele tem as mãos sujas do sangue do povo palestino e que continua impingindo à Cuba o pior, o mais desumano bloqueio econômico da história do mundo é sim pertinente. Muito certo. E são sim dados relevantes. Mas nosso raciocínio precisa ir além. Trata-se de um presidente americano, presidente da maior e mais opressora força econômica do mundo. Pior que isso, presidente de uma superpotência ameaçada, acuada por uma crise de grandes dimensões. Presidente de uma superpotência intervencionista, em crise e que governou e vai seguir governando com fortíssima oposição congressual. Só isso já diz bastante sobre a política externa de Obama.
No entanto, dizer que por conta de seguir com política externa semelhante a seu antecessor republicano faz o governo de Obama ter igual significado que seu antecessor , ou pior, igual ao que teria a eleição do mórmon de ultradireita Mitt Romney, é como dizer que como a política de Dilma em relação ao funcionalismo público federal é mais perversa que a de FHC (e tem sido) seriam estes também, governos que se equivalem. Percebem? Reducionismo. 
Obama foi eleito (e reeleito) majoritariamente com os votos de mulheres, negros, gays e latinos. Ou seja, a fatia mais oprimida daquele país. Não por acaso, os que externam maior dificuldade em enxergar as diferenças entre republicanos e democratas são em regra homens, brancos e presumidamente heterossexuais. É dos dois, quem defende políticas sociais de defesa de seu povo na área da saúde e da geração de empregos.
Mitt Romney não é apenas republicano (republicanos que defendem historicamente intervenção mínima na criação dos postos de trabalho, diminuição de impostos para os mais ricos e que classificam investimentos sociais como "gastos públicos"), é um republicano do Tea Party, setor ainda mais a direita dentro do partido republicano, setor xenófobo que sustenta posições dignas do século XVIII. Quem assistiu aos debates ouviu de Mitt pérolas como: a ideia não é expulsar ninguém do país, mas tornar a vida deles por aqui absolutamente impossível. Se não houver trabalho e saúde para eles, irão embora. 
Desnecessário lembrar que pela importância política e econômica, todas as posições exaladas lá acabam influenciando as políticas para mulheres, negros, e minorias no mundo inteiro, para o bem ou para o mal.
Criticar a polarização entre democratas e republicanos também me parece um argumento ingênuo e frágil. Embora haja polarização existem lá vários outros partidos. Além disso, a quantidade de partidos não guarda relação com autêntica democracia. Esta é apenas uma das bobagens da grande mídia repetida á exaustão e que é comprada por muita gente boa como grande verdade.
Enfim, pouco muda, mas não esqueçamos, amigos, quando falamos de mudança, de garantida de direitos e de resistência, "pouco" é muito diferente de "nada".
Citando a tweet da Manuela D`Ávila comentando o discurso da vitória: "não é o principal, mas importante. Obama diz que independente de ser gay, negro ou mulher nos EUA se tem direitos. Falar é reconhecer."

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aloha!


Esperando ansiosamente pelo verão. Saco meio cheio de 2012 já. E vocês?

Pessoa absolutamente insignificante (pra mim, óbvio) relata que decepcionou-se profundamente com minha intransigência durante o processo eleitoral. Algo como: "eu te achava tão massa, falando aquele monte de bobagem no blog, com aquela rede amarela na sacada, com aquelas fotos dos filhotes, aquele marido rasta... Daí cê vai lá e diz que dinheiro da prefeitura tem dono e o dono não é o prefeito, eu argumento que sempre fizeram assim e tu diz que não interessa e  que TÁ ERRADO? Porra, e eu admirava tanto tua urbanidade. Custava arrumar uma saidinha pela tangente, dizer que não era bem assim, que cada caso é um caso, que a eleição vai e as "amizades" ficam? tu não sabe que nessas situações a postura que sustenta frágeis relações como a nossa é a de um (fingido) distanciamento da política, ainda que se saiba muito bem o que se pensa? Que merda, hein?! Tô decepcionada contigo, viu. Sou capaz de te bloquear do Face. Não duvide."

Querida criaturinha insignificante, já passei da idade de me preocupar contigo e com tua decepção. Na verdade me alivia saber dela. Não é meu amigo quem não gargalhou e chorou (ou prendeu o choro) comigo pelo menos três vezes. E meus amigos, na sua maioria, já desculparam de mim mais que apenas opiniões contrárias. Bom passeio pelo mundo e de graça te dou uma dica: dizer o que pensa de forma clara afasta gente oportunista e te aproxima de gente melhor.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O bem viver

Chegava no trabalho. Outro dia besta de trabalho. Quando estacionei vi o cara. Meio fora de forma, em pé na calçada, cotovelos apoiados no alto de um velho Escort metálico (daqueles que foram super "in" alguns anos depois de Cristo). Celular grudado no ouvido, alternava caretas de incredulidade e irritação. Sujeito engraçado o nosso herói. Enquanto me aproximava pensei que aquelas caretas todas podiam bem ser minhas. Identificação instantânea.  Aquelas expressões pareciam perguntar: "que mundo é esse, meu deus?", pergunta que eu mesma faço mentalmente exatas 258 vezes, todos os dias. Uns passos antes de eu passar por ele, se vira num rompante. Absolutamente chocado levanta as duas mãos bem alto como que implorando misericórdia divina.
Noto que nosso benfeitor aflito usa um relógio vistoso, quase ridículo. Daqueles prateados com fundo vermelho. Imagino de cara o figura dirigindo com o bração (e relógio) pra fora do Escort, todo pimpão.
Gruda de novo o celular no ouvido e no momento exato que passo por ele, solta quase num grito:"Olha... Se a tua vida depende mesmo de eu te emprestar esse cheque, pode começar a cavar tua cova, amigo". E desliga.
Ganas de aplaudir nosso galã. Vontade de erguer o braço do relógio bem alto, como fazem no box. Eis o campeão!
Respostas na medida que entalam na garganta. Quem nunca?
Mas não nosso herói.
Você que já catou no fundo de sua civilidade respostas educadas pra tanta gente folgada, manipuladora e sem noção, vê se aprende: compre um carro que possa pagar; assuma que o relógio que você queria mesmo ter comprado brilhava um tantinho mais, e; da próxima vez que alguém te fizer uma chantagenzinha emocional responda sem dó: pode começar a cavar!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

22/08

Assunta é mulher que você chamaria de "comum". Chamaria, porque você assim como eu, na sua pressa, apenas pode ver o que se apresenta rápido diante dos teus olhos. Nada mais.
Então, assim de cara você veria uma mulher comum, de incomuns e profundos olhos verdes.
É que ela é como tantas outras: comumente especial.
Dizemos "comum"aquilo que não sobressai de imediato, não salta aos olhos. E frequentemente erramos confundindo o comum com desinteressante ou menos valioso.

Assunta é mulher "comum"que discute política, ama futebol e é a fã mais impiedosa do seu time do coração. É noveleira e religiosa. Assunta é mulher "comum", não é santa. Nem quer. Trabalhou em lavoura, em hospital e em salão de beleza. Assunta é costureira de mão cheia e acredita, como aquelas que vieram antes dela, que costura não é dom, é sina. É perfeccionista, o mais ou menos não lhe serve. Talvez sua característica mais comum seja que ela, como nós todas, se sente culpada boa parte do tempo. Assunta voltou pra escola adulta, terminou o segundo grau estudando a noite, trabalhando de dia e criando dois filhos. Muito antes disso, nos anos setenta, casou-se com um lindo vestido curto e vermelho. Mais que orgulho das origens, Assunta tem é saudade daqueles tempos e daquelas gentes. Assunta não gosta de cores neutras e tons pastéis. Ama flores, todas. Sabe o valor de tudo e é louca por uma pechincha. Quase que numa ironia da vida, ensina hoje outras mulheres a fazer e consertar brinquedos e doá-los. Brinquedos que também não teve.

Assunta é mulher comum. Assunta é como todas nós. Se você detiver o olhar mais um minuto, se perceber o riso discreto no cantinho da boca vai ver a menina de pés descalços fazendo de balanço a folha da palmeira, mãozinhas segurando firme, cabelinho fino voando. Tá ali ó, é minha mãe. É também um pouco de mim. Seu nome é Assunta.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Cérebro: pecado é ter e não usar

Tô no estacionamento do supermercado, compras para o almoço garantidas, fazendo hora para pegar Marina no balet, otimizando o pouco tempo que tenho.
E pensando. Viajando na constatação da baita sorte que envolve esse quadro. Por traz dele a mensagem: a Marina está aí, e tem saúde para o balet (saúde perfeita na verdade) e, de quebra posso proporcionar esse tipo de desenvolvimento a ela, do jeito que sonhei que seria (pronto, rolou primeira lágrima): com dança, musicalização, etc.
Você pode argumentar que não se trata de sorte. É o que? Merecimento pelo meu grande esforço? Em parte  talvez. Fui escolhida? Então alguns (gente boa e esforçada) são escolhidos para os piores sofrimentos e privações? Sacanagem.
Não quero desmerecer tua crença e posso estar muito errada. Então sobre isso, paro aqui.
Porque minha verdadeira (e bem mais importante no momento) dúvida é: por que é tão difícil se colocar no lugar dos outros? Por que a dor que toca a nossa carne é que é mesmo insuportável? As outras dores são relativas, variáveis, suportáveis e condicionadas aos atos de seus possuidores.
Por que antes dos julgamentos todos não é automático em nós o seguinte raciocínio: como é estar ali? Como é viver dentro daquele corpo, com aquela forma, com aquele código ético, naquele tempo espaço. Quais as condições de ação quando se está ali e não aqui.

(Pausa. Pegar Marina. Já volto.
Em casa. Quinze minutos restantes pra essas linhas.)

Se esses questionamentos fossem um reflexo nosso diante do desconhecido, algumas polêmicas nos seriam poupadas e o que é melhor, pessoas sofreriam menos. Muito menos.

Especificamente, falo sobre a polêmica gerada sobre se a mãe de um feto anencefálico (sem cérebro) tem o direto (DI-REI-TO) de interromper sua gestação.
Não se trata do que você pensa que seja a conduta mais adequada, ou do que sua religião permite ou não. Falamos de direito. Falamos de uma mulher poder tomar por si a decisão mais difícil da vida dela, sem ter de responder por isso no judiciário.

Eu sei que você acha que só deus pode tirar uma vida e que seu conceito de vida não tem absolutamente nada a ver com o meu. Mas olha, seguindo tua lógica, deus nos deu (a nós, escolhidos) um cérebro, para pensar, para refletir sobre o bom e o justo. Nosso cérebro humano, esse danado, raciocina. E graças a esta condição, sofremos, imensamente as vezes. A Mel (minha cachorrinha) sente dor se é maltratada, mas ela não é capaz de refletir sobre aquela dor, sobre o que a causou, sobre quem a provocou, sobre a gravidade da situação que ela representa. Acredite, em se falando de dor, Mel levou vantagem.
Mas uma mulher que descobre que carrega no ventre um filho que não vai amamentar, que não vai viver com ela mais que algumas horas é capaz de pensar sobre isso. E se ela decidir que vai viver isso até o fim, que quer olhar no rosto do seu bebê ao menos uma vez, muito bem. Agora, se ela se mostrar incapaz de lidar com aquilo, se ela achar que nem ela, nem sua família devem passar por este martírio, é você que vai argumentar/decidir que ela deve? Como?

Não tenho mais tempo, hora de pegar o Carlos na aula  e improvisar um almoço. Perdoem os erros todos.

Deixo vocês com essa música que ouvi no mercado pela manhã e que me inspirou a escrever. Chorei muito nesse filme, como a maioria. A princípio não tem mesmo nada a ver com o tema. Mas fala de uma dor muito solitária. Enfim, digam vocês.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Trinta e nove voltas em torno do sol (completas)

Tá, eu adoro fazer aniversário. Adoro a chance da pequena retrospectiva do ano. Adoro os abraços, as palavras, os presentes e os carinhos todos.
Há quem não goste. Há quem diga que é deprimente contar o tempo que resta assim, quase que numa contagem regressiva para o fim. Enfim...

A verdade é que só não faz aniversário, só não ganha ruguinhas e novos cabelos brancos quem fica pelo caminho. Não, obrigada.

Deixo de presente, em retribuição a tanto afeto, essa linda canção que diz muito ( se não tudo) do que eu penso sobre o correr dos dias.

"ser novo pra mim é algo velho..."




Não vou lamentar
a mudança que o tempo traz, não
o que já ficou para trás
e o tempo a passar sem parar jamais
já fui novo, sim
de novo, não
ser novo pra mim é algo velho
quero crescer
quero viver o que é novo, sim
o que eu quero assim
é ser velho.
Envelhecer
certamente com a mente sã
me renovando
dia a dia, a cada manhã
Tendo prazer
me mantendo com o corpo são
eis o meu lema
meu emblema, eis o meu refrão
Mas não vou dar fim
jamais ao menino em mim
e nem dar de, não mais me maravilhar
diante do mar e do céu da vida
e ser todo ser, e reviver
a cada clamor de amor e sexo
perto de ser um Deus
e certo de ser mortal
de ser animal
e ser homem
Tendo prazer
me mantendo com o corpo são
eis o meu lema
meu emblema, eis o meu refrão
Eis o meu lema
meu emblema, eis minha oração
Eis o meu lema
meu emblema, eis minha oração

Lema - Ney Matogrosso para o show Inclassificáveis

terça-feira, 3 de abril de 2012

trinta e nove voltas em torno do sol (parte II)

Esse devia ser um texto para homenagear minhas amigas. Todas elas. As que ficaram apesar da vida. Aquelas em quem um pouco de mim também permaneceu. Desde aquela com quem eu pulava elástico depois da aula até aquela que ainda ontem finalizou um email bobo e sem importância com "eu te amo. muito. sempre."
Mas não saiu. Não foi. Não rolou. Ficou muito ruim, mais piegas que de costume. Indigno delas.

O que eu queria dizer é que nessas trinta e nove primeiras voltas em torno do sol foi uma baita sorte encontrá-las e caminhar, ser arrastada, correr, chorar e gargalhar ao lado delas.
Queria que elas todas soubessem (caso ainda não saibam) que houve dias que só consegui suportar porque contava com seu carinho e que cada gargalhada sonora que demos juntas ainda ecoa na minha memória me fazendo vez ou outra rir de novo. Queria ter dito que está tudo bem, que eu sei que elas ainda estão lá. Queria perguntar também se tudo bem mesmo? Se elas entendem a ausência, os esquecimentos todos.
O que eu pretendia resumir educadamente em algumas linhas é que gurias, vocês são foda. mesmo. Que este passeio pelo mundo não teria metade da graça quem tem sem a nossa cumplicidade passada, presente e futura. E que eu estou aqui, ok?!

Algumas estão aí em fotos, pra homenagear as outras.











segunda-feira, 2 de abril de 2012

dica

Olha só... Quando vc diz que "não tem nada contra gays, mas que há lugar e hora pra tudo", você está dizendo que admite que eles possam existir contanto que não se comportem como tal, exceto em suas casas. Este comentário não faz de você "um cara legal e  compreensivo". Uma dica: ADMITIR a existência de outras orientações sexuais que não a sua, não te compete.

Dizer que alguém pode fazer o que quiser na cama, mas não tem nada que ficar "dando pinta em público" não te dá pulseirinha vip para o século XXI, meu caro, e nada mais é que negar o direito de alguém de falar com a própria voz, mover-se com seus trejeitos característicos, vestir-se segundo seu gosto pessoal e manifestar seu afeto publicamente. E se direitos assim tão elementares fossem retirados de ti?

Fico pensando o que realmente te incomoda. Suspeito que você ande se sentindo meio acuado, vendo o mundo girar nessa velocidade e cada vez menos gente fazendo eco da tua fala. Sinto uma pena que não consigo controlar quando você, em desespero de causa aponta pra alguém com idade mental muito superior a tua e diz sem corar: "veja bem, há crianças aqui. É preciso ter bom senso".

Eu poderia tentar aliviar teu coraçãozinho tão sinceramente preocupado com o futuro do mundo e te contar em primeira mão que crianças não aprendem homossexualismo e que são na verdade mais preparadas pra lidar com isso que você, mas sabe, a verdade, a verdade mesmo é que você e sua conversinha me dão além da pena e de um pouco de enjoo, uma preguiça medonha.


sexta-feira, 30 de março de 2012

Pra não dizer que não falei de ti

A você, perfeita criatura, sempre com o dedo em riste pra não deixar escapar nenhum pecado (dos outros);
ao “profissional” que teve a grande sacada de deixar de lado o ofício em si e passou a se dedicar a arte de lamber sacos; 
ao vizinho amargurado que odeia música, crianças, cachorros e “aqueles barulhos de noite”; 
ao chefe inseguro e pouco competente que está neste exato momento se equilibrando como pode sobre os pescoços de seus prepostos; 
a você mau político que ainda não decorou a sigla de seu novo partido mas vai gastar MINHA GRANA neste findi; 
a você que (colonizado até o último fio de cabelo) sinceramente acredita que tua cor, teu sexo ou teu dinheiro te faz melhor que alguém; 
a você que se ocupa arduamente de vidas que não a sua e que acredita piamente que nosso gramado é mais verde e que isso não é justo; 
a vocês todos um lindo final de semana, visse?!
E deixa eu explicar, não é que a gente do lado de cá (sim benzinho, são lados opostos) não perceba a tua presença. A gente apenas não se ocupa dela além do estritamente necessário.

Então, bom findi. Porque olha... Você tá precisando mais.


quarta-feira, 28 de março de 2012

trinta e nove voltas em torno do sol (parte 1)

Gestante linda em início de gravidez me perguntou outro dia quanto tempo meu corpo levou pra voltar ao normal depois dos partos dos pequenos. Menti, óbvio. Sem remorso. Situações que nos forçam a mentir, por certo também devem nos absolver, pois não? 

A modalidade da mentira utilizada no caso foi a da "mentira por simplificação". Quando a "toda a verdade" é densa demais para o momento ou chatinha de explicar, a gente pode (deve, na verdade) optar por uma simplificação desta, não esquecendo que tal resuminho implica em nada mais do que a aqui descrita "mentirinha por simplificação" uma vez que acaba por ocultar o cerne da coisa, se é que me entendem. Em consulta ao oráculo Google descobri, para minha humana alegria, que esta categoria de mentira não chega, em regra, a ser considerada uma "mentira deslavada" ou uma "falsidade sem vergonha", títulos que arrastariam seus autores para as profundezas. Não. De fato, é considerada por renomados cientistas teólogos como sendo nada mais que um pecadinho. Seu correspondente em uma infração de trânsito por exemplo, seria o de estacionar em vaga proibida.

"Ah... em um ano estava tudo mais ou menos igual." Desconversei.

Se toda a verdade fosse oportuna, eu olharia diretamente nos seus lindos olhos brilhantes e responderia serena: "Nunca. Nunquinha, entende meu bem?!" Vê bem: se nada, NA-DA mais vai ser como antes, porque o corpo deveria? Se uma vida nova se inaugura diante da gente, porque não novas curvas (ou, vá lá, dobrinhas). 
Embora as medidas (e imagino que se referia a elas) possam voltar ao mesmo ponto (e não foi meu caso), a verdade é que a gente nem chega a se lembrar novamente como eram as coisas antes da maternidade e nunca mais nos vemos da mesma forma. 

Como todo o resto, divertir-se vai depender da nossa disposição.

A gente pode passar o resto da vida olhando fotos que nos espanam na cara como nossa cintura era fininha e nosso rosto tão lisinho. Decidir que a gente vai se parecer com elas por todo o tempo que nos for possível, custe o que custar.
Ou...
Tirar novas fotos e resolver que a cada nova fase da vida a gente vai merecer novas poses, roupas novas em novos tamanhos e cores.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um post de adeus

Em noventa e cinco por cento dos dias, de dezembro (início oficial do verão, ainda trabalhando) até a semana passada (quando acabaram minhas férias) os pisantes foram esses. Pra quase tudo.
Teve um dia que não. Eu lembro. O “dia da fonte”. O dia da fonte daria uma boa história, mas levaria o que me redta de dignidade.
Mas nos dias mais felizes eram sempre eles: os chinelos.

Mas o mundo girou, o verão se foi e agora estamos aqui, vivendo os dias da despedida. Da despedida não, do até breve.


quinta-feira, 22 de março de 2012

Novas tecnologias, velhos preconceitos

Terminei ontem a leitura do primeiro livro no celular.
Ao contrário do que imaginava, trata-se de uma leitura bem confortável.
Se a gente dispuser de um aparelho com a tela grandinha acaba tendo mesmo várias vantagens em relação aos livros impressos: pode-se ler em qualquer lugar e com qualquer (ou nenhuma) luminosidade, vai com a gente pra todo canto sem ocupar espaço algum e é mais prático e leve para segurar durante a leitura.
O ponto negativo é o consumo da bateria e os ainda poucos (mas nem tão poucos) títulos disponíveis.
Mas no geral, gostei bastante.

As férias de fevereiro seriam, por si só, uma excelente desculpa para a escolha da obra “Férias”, da irlandesa Marian Keyes, menos pelo título sugestivo e mais pelas características que permeiam as obras da autora: textos leves e engraçados retratando heroínas pra lá de “humanas”.
A verdade porém é que no último ano, as leituras ditas menos densas têm sido as minhas favoritas. Tanto é assim que leio todos os livros que compro para os pequenos: “Desventuras em série”, “Como treinar seu dragão”, “Querido diário otário”... E.adoro.

Mas “Férias” me surpreendeu para o bem no sentido de não ser tão “bobinho” quanto desenhavam minhas expectativas. Bem escrito e super bem enredado, contando as aventuras de uma toxicômana em um centro de reabilitação. Na verdade, trata da conquista da autoestima e do amadurecimento.
Recomendo.

Ps.: aplicativo novo, post escrito do celular.  :P


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O vento

Abri cedo as janelas de casa. Sol lindo e um vento fazendo tudo dançar à minha frente. Nada frenético, uma dancinha tranquila, um balancinho só de quadril, sabe? Meu café da manhã foi assim, preguiçoso, vendo tudo dançar lá fora.
Na net vi esse vídeo falando de um vento mais forte, o vento da mudança.
Que os ventos continuem soprando a nosso favor. Mais calmos ou mais agitados, dependendo da demanda e do tamanho da batalha.